Erato

Carnaval de Recife — Parte II
Erato
Sebastian havia ido pra Recife por muita insistência de um de seus amigos, tendo em mente que precisava se distrair e deixar de lado todas as reponsabilidades que haviam sido impelidas a ele desde pequeno. Talvez viesse daí sua frieza e racionalização transformando-se em características marcantes de sua personalidade. Porém em algumas raras exceções ele se entregava as suas paixões de modo irracional e secretamente, Mabel de inicio, seria uma delas.
No dia em que se conheceram Mabel havia desistido de viajar com seus parentes pro interior do estado, não queria perder as celebrações de carnaval daquele ano e ter que beirar a monotonia e tédio prematuros de seus familiares que por costume regional eram meio alheios aos cursos existentes da vida nas grandes metrópoles. Ela gostava de lá, mas quando criança, agora ela só sentia um desejo incessante em conhecer o máximo de tudo que pudesse, sem medos ou inibições. Mas sentia que muitas eram suas limitações. Mas não naquele carnaval, lá ela pretendia sentir tudo que pudesse e talvez por ironia do destino o seu já havia sido traçado numa tarde de sábado.
Ela se arrumava as pressas na casa de uma de suas amigas, todas já haviam descido mas ela meio avulsa ao comprometimento com a vaidade não via necessidade em se encher de pinturas faciais, sua beleza não suportava o não natural, sua face rosada era prenúncio chamativo pra cor dourada de seus cabelos.
Quase como um anjo com áurea não submissa as ordens impostas a ela. Porém naquele dia, era quase que obrigação a sua participação, um grupo de oito garotas fantasiadas de musas gregas, era nesse grupo que o carnaval se misturava com antigos mitos de desejos e inconsistências veladas que ela e suas amigas de fato se empolgavam e pra estar no meio daquilo precisava se produzir e assim ela fez. Ela como a nona musa ia como Erato musa da poesia, seu vestido de seda havia sido feito meses antes por dona Jose, senhorinha que morava na sua rua e que desde muito nova ganhava a vida com a constura. Ela sabia que Erato não era muito de festas e a quando recebeu no seu ateliê sabia que boa coisa deveria fazer, então assim o fez. TIrou todas as suas medidas e cuidou para que parecesse feito e pensado para uma deusa, tudo sob medida com tons de um amarelo cor de mel que caia em seu corpo quase como um manto sagrado. Dona Jose sabia o que fazia!
Todos esses detalhes faziam daquela fantasia um reencontro com seu arquétipo a muito esquecido e no fundo era exatamente isso que sentia enquanto se via frente ao espelho, atrasada mas satisfeita com sua beleza de musa. Saiu as pressas e foi assim que quando pronta, correu ligeira até o elevador onde se defrontou com Sebastian que quase não se conteve com a sua beleza. Ela perguntou se ele descia e ele não a respondeu, pela lógica descia, mas pela incerteza ela decide perguntar mais uma vez:
- Ei rapaz, tô falando contigo… desce?
Ele rindo e meio sem jeito por ter a encontrado tão avulso responde:
- Desculpa, mas sim! Pode vir comigo, ou melhor com o elevador, sei lá. Talvez nós dois.
Ela ria e pensava ter dado certo a fantasia de musa afinal, uma pena que sabia que provavelmente não o veria novamente já que ele estava descendo com algumas malas no chão. Mas era carnaval e aquilo não importava.